BERTÔ

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Bertô

Pit of Lions, 2017

Acrílica e giz pastel oleoso sobre madeira 

Crucificado, 2018 

Acrílica sobre tela

Fui batizado quando era bebê, pois venho de uma família católica. Mas, entre a juventude e a vida adulta, passei por diversas experiências religiosas em diversos templos: umbanda, budismo, xamanismo, hinduísmo e espiritismo; até que o cristianismo me pescou e eu compreendi que precisava passar pelo batismo consciente e voluntário.

 

Um pouco antes de me batizar novamente, tive um sonho onde estava cercado por leões mansos. Comentei sobre a experiência com o pai do amigo que me batizou e ele me contou sobre a história de Daniel na cova dos leões. Na passagem, o profeta cai em uma armadilha onde seria devorado por leões, mas Deus envia anjos para segurar as bocas dos animais.

 

Tive meu batismo e, quando voltei pra casa, li o livro de Daniel. Naquele momento, entendi que Deus estava conversando comigo através do livro e daquele sonho. Era 2017 e, a partir de então, entendi que minha fé deveria ser tão intensa quanto a de Daniel. Eu precisaria ter a esperança de que, por mais que tentassem me jogar na "cova dos leões", eu sempre sairia de lá vivo. 

 

A pintura "Pit Of Lions" surge nesse contexto. Eu nem imaginava todo o mal-estar social e político que o Brasil passaria nos anos seguintes, mas eu sabia que precisaria ser como Daniel. Novas covas de leões surgem pelo mundo todos os dias e é interessante notar como essa analogia atravessa até a narrativa de Jesus.

 

Não aleatoriamente, no momento da crucificação, Jesus cita o início do Salmo 22: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" Se buscarmos o texto, ele continua com: "Livrai-me da boca dos leões", uma referência direta a Daniel na cova. O que acontece depois é de conhecimento de quase todos: Jesus vence a morte e ressuscita.

 

Investigar o tópico do milagre da ressurreição em tempos de necropolítica é quase como nadar contra uma corrente niilista. No entanto, o sobrenatural tem o poder de friccionar rugido e silêncio até que ambos se tornem um só som. E é aí que encontro função enquanto artista.

Bertô

 

Revisão: Rafael Bahia

Bertô 

1992, Guarulhos, SP.

Vive e trabalha em Guarulhos, SP. 

Formado em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Líbero, em Direção de Cinema pela Academia Internacional de Cinema e em Artes Plásticas pela Escola Panamericana. Trabalha com cinema independente desde 2013 e dedica-se à pintura desde 2016. Sua pesquisa artística busca observar a relação do cristianismo com o onírico e o cotidiano, por meio de um universo imagético colorido e misterioso.

Já foi assistente do artista Rodrigo Cass e, no Instituto Tomie Ohtake, fez parte dos grupos de estudos da Escola Entrópica (2018-2019).

Instagram: @rober.berto